Quem é Martha Rocha, a nova Chefe de Policia Civil no Rio:  "Não vou namorar nos próximos meses"

 

 

 “Nos próximos meses, não vou namorar ninguém mesmo!”, disse Martha Rocha, a delegada de 51 anos que, a partir de hoje, vai comandar 12 mil policiais no Estado do Rio. Solteira, sem filhos, “bem comportada” segundo ela, nada em sua vida agora é mais importante do que o desafio de tornar a Polícia Civil do Rio uma instituição acima de qualquer suspeita.

Vascaína sem entender nada de futebol, adepta da “caminhada enganosa” e avessa a musculação, Martha Rocha tem nome de miss por acaso. Seu pai, dono de padaria, “português de uma aldeia de Trás-dos-Montes” – nas palavras da delegada –, decidiu ignorar o nome da moda na época, Márcia. Resolveu chamar a filha do meio de Marta, porque a Márcia de sua aldeia tinha tido uma vida infeliz e ele acreditava nesses sinais. Mas o pai queria seis letras. E inseriu o “h”. Foi registrada como Martha Mesquita da Rocha.Ela foi criada no subúrbio da Penha, no Rio, numa família muito católica.

 

 Como várias mulheres de sua geração, decidiu ser professora primária. E foi para a polícia quase por acaso, ao fazer um concurso para escrivã, há 27 anos. Fez outro concurso, dessa vez para delegada, em 1990. Atuou em casos estrepitosos, como o do sequestro do ônibus 174 no bairro do Jardim Botânico, que virou filme e documentário.

 

E também no terrível assassinato do menino João Hélio. A imprensa consagrou então o nome Martha Rocha, o mesmo da exuberante miss Bahia e miss Brasil que, por uma injustiça do júri em 1954, não se tornou miss Universo aos 18 anos, por ter duas polegadas a mais nos quadris tão nossos, tão brasileiros.

 

Quando vi a delegada Martha Rocha ontem no terraço do prédio da Polícia Civil, no meio de homens bem altos e fortes, todos de terno, assessores diretos e seguranças, tive uma certa surpresa. Ela tem 1,52 metro de altura, usava um vestido vermelho de bolinhas brancas, franzido abaixo dos seios, com comprimento na altura do joelho. Os sapatos tinham saltos altíssimos, com uma fivela brilhante lateral. Os cabelos cor de cobre estavam arrumados num corte mais convencional, ajustado a sua idade (“tenho quase 52, meu aniversário é dia 30 de abril”), o sorriso constante criava uma leve covinha no rosto, a pele boa era valorizada por uma maquiagem bem discreta, nada acentuando os olhos, o batom cor de terra hidratava os lábios. Usava brincos pequenos de argola, um anel com pérolas, e um colar fino com um pingente de Nossa Senhora da Conceição.

Andava devagar, sem pressa nem ansiedade. E nada em sua aparência me fazia ligar a pessoa à situação. Martha Rocha está assumindo a chefia da Polícia Civil no meio de uma crise sem precedentes na história de uma instituição que já viu vários chefes decapitados por operações Guilhotina, acusados de crimes que vão do simples desvio de conduta a casos escabrosos de corrupção e ligações com milícias e grupos de extermínio. Seu antecessor, Allan Turnowski, foi indiciado, embora não exista ainda uma prova concreta contra ele. Vários delegados e policiais foram presos ao fim de quase dois anos de investigação da Polícia Federal e do Ministério Público, em parceria com o secretário de Segurança Beltrame.

Não que eu esperasse encontrar uma mulher machona, porque os últimos machões da Civil não parecem ter dado muito certo. Mas a serenidade de Martha, sua simplicidade, seu jeito tímido de cruzar os braços, desconfortável com as fotos e a súbita fama, seu sorriso nada forçado… esse conjunto todo da nova chefe me desconcertou. Pensei – e logo me perguntei se não seria preconceito: ‘será que ela terá pulso?’ E tratei de mudar o pensamento. A única autoridade, nesse momento de crise, virá do caráter e da lisura.

A conversa com Martha em seu gabinete tinha prazo curto. Ela tinha hora marcada com a manicure, para estar com as mãos e unhas em ordem na cerimônia de posse, ontem, sexta-feira, à tarde. Um detalhe cuja importância talvez só as mulheres compreendam. Pela manhã, perguntei a Beltrame por que exatamente ele havia escolhido Martha: “Ela tem quase 30 anos de polícia. Fez de tudo. Foi escrivã, policial, investigadora e delegada. Sua ficha é totalmente idônea. Seu nome é uma unanimidade. E vocês, mulheres, estão arrebentando a boca do balão! Até hoje, nunca me arrependi de todas as vezes em que coloquei mulheres em postos-chaves. E tenho certeza de que não vou me desiludir com ela”, me disse por telefone o secretário de Segurança, pouco antes da cerimônia de posse.

Aqui vão alguns trechos da entrevista com a nova chefe de Polícia Civil do estado do Rio:

FAMÍLIA E RELIGIÃO

“Sempre fomos católicos praticantes, éramos todos ligados à igreja Santo Antônio dos Pobres, no subúrbio da Penha, onde fui criada. Meu pai foi velado ali. Vou à missa todo domingo, agora na igreja que fica na esquina da rua de minha casa, na Tijuca. Sou fruto da escola pública. Estudei Direito na UFRJ, quando lecionava como professora primária. Tenho uma irmã pedagoga e um irmão consultor de vendas. Sou a do meio”.

CARREIRA NA POLÍCIA

“Foi por acaso. Fiz um concurso para escrivã em 1983 e depois para delegada em 1990. Eu tive dúvidas se deixava de ser professora. Mas meu pai me estimulou. Ele era feminista sem saber. A polícia me seduziu, me cativou, não há um dia igual ao outro. Não existe rotina. Sei hoje que me preparei a vida toda para este momento. Para sentar nesta cadeira de chefe de polícia. Mas só soube agora. Porque foi uma surpresa total para mim quando o secretário Mariano (José Mariano Beltrame) me chamou para conversar e depois confirmou meu nome. Acho que só ali tive a sensação do reconhecimento de uma trajetória, de uma vida dedicada ao trabalho”.

AMOR E CASAMENTO

“Nunca me casei, mas não foi por causa do trabalho. Simplesmente não aconteceu. Nunca fui namoradeira. Acho que sou muito chata, exigente. E sempre fui muito comportada. Às vezes eu digo que casei com a polícia. Mas acho que nada é mais importante agora para mim do que o desafio de transformar a Polícia Civil, de implementar projetos, metas, resultados, sempre pensando no tripé competência, qualificação e ética. Nos próximos meses, não vou namorar ninguém mesmo!”

LAZER E EXERCÍCIOS

“Levo uma vida muito simples. Além do trabalho, tenho amigos muito antigos, gosto de ir ao cinema. Ler está difícil. Comprei a biografia da (colombiana) Ingrid Betancourt, mas não tive tempo de ler. Eu me cobro mais exercícios. Detesto musculação. Faço uma caminhada meio enganosa. Mas só isso. Sou vascaína, mas não entendo nada de futebol. Não fumo. Bebo água o dia inteiro”.

MODA E BELEZA

“Compro roupa sempre na mesma loja em Ipanema, porque detesto fazer compras. O que não pode faltar em meu armário, jamais, são sapatos de salto alto. Por causa de minha altura, claro. Sempre uso salto. Tanto que eles não me provocam nenhum desconforto. Estou acostumada, o dia inteiro. Maquiagem, quase não uso. Uma base, um batom, no máximo”.

MULHER NA CHEFIA

“Acho que mulheres tendem a ser mais pragmáticas, mais rápidas nas decisões, por natureza mesmo. Eu falei com a nova secretária nacional de Segurança Pública, Regina Miki, ela me ligou dando os parabéns, e logo combinamos nos encontrar na próxima terça-feira no Rio para trocar informações e pensar em projetos comuns. Só a havia encontrado numa conferência nacional sobre homofobia. Nós, mulheres, temos um certo despojamento. Não damos tanta importância a alguns rituais de poder ou cargos. Queremos resultados. Além disso, por ser a primeira mulher neste cargo no Rio, eu sinto como se tivesse mais responsabilidade, mais compromisso de dar certo, em nome de todas as mulheres. Pode parecer bobagem, mas acho que as mulheres que rompem barreiras pensam assim”.

CRISE E FUTURO

“A palavra crise não faz parte de meu vocabulário. As acusações e os crimes levantados pelas últimas operações não dizem respeito a minha história dentro da polícia. Nem de toda a instituição, mas de alguns grupos. Às 10h da manhã de sábado, estarei reunida com cerca de 20 pessoas de minha equipe para traçar as grandes linhas e prioridades de nossa gestão. Preciso conhecer melhor o presente, preciso ouvir a todos. Entre meus objetivos, está o de fortalecer a Corregedoria para que a gente não precise mais da intervenção da Policia Federal ou de qualquer forca externa para corrigir nossos rumos e cortar na nossa carne. A Polícia Civil precisa fazer isso, precisa investigar a si mesma, com transparência, para ganhar a confiança da população. Precisamos também dar um atendimento respeitoso, eficiente e ético àquela mulher com uma penca de filhos ou a qualquer cidadão que chega a uma delegacia com seu problema. Compartilho a visão de especialistas que dizem que o policial civil é o pedagogo da sociedade. Ele tem uma função educativa. Precisamos transmitir uma boa imagem e dar o bom exemplo”.

 

FONTE: Época - Blog Mulher 7 por  7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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